domingo, 12 de abril de 2015

DESP(IR)EDIR-SE


Sinto-me despida pela dor que me atravessa,
Pelo beijo que não me deste,
Pela palavra que não me disse,
Pelo olho que me encarava covardemente,
Pelo brilho que deles saltava.


A boca tornara-se agora um complexo paradoxo
Convidando-nos a unirmos e separarmo-nos simultaneamente
Como um muro indestrutível que se pôs entre nós, tão perto que tornou-se distante
Ímpossível de ser tocada


A linha que nos unia rompeu-se de súbito,
Mantendo-nos conectados pelas duras palavras ditas e pelo momento de dor.


Acabar-se
Restar nu,
Despido.


É da dor que nascem as rimas,
Os versos
É uma fábrica de ideias que encontra uma saída pela via do sofrimento
São os sentimentos se ligando a outros sentimentos a outras ideias
E tudo isso ganhando cor, forma, nome e identidade


Da alegria não nasce inspiração, pois que ela é a própria
A alegria convida a viver, a por em ato, é indizível
Ela chama para a rua, convoca-nos a dançar


A dor é uma dobradiça sem fim, cheia de calos, feridas, buracos
Que nas suas entrelinhas encontra o paraíso porque pode se traduzir em palavras
E das palavras nascem os poemas, os contos, os encontros, e a vida


É por isso que o amor não é dito: porque é alegre, invita à dança.
Pede que mostremos, sem percalços, sem perguntas, sem cobranças
Ele não precisa ser dito, só precisa ser sentido.
Fazer sentido
Tornar-se sentido.


Se não pode ser visto, não é amor


Das dobradiças criam-se palavras, mundos e universos
E então não sofro mais.


Isadora Machado/2015