terça-feira, 26 de março de 2013

"A multidão solta as rédeas aos seus impulsos, e nós nos inibimos. Assim agimos a fim de manter a nossa dignididade. Economizamos nossa saúde, nossa capacidade de gozo, nossas forças; economizamos para uma coisa qualquer, sem saber bem para quê. E este hábito de supressão constante dos instintos naturais dá-nos o caráter de refinamento. Sentimos mais profundamente e, por isso, não ousamos exigir muito de nós mesmos. Por que não nos embriagamos? Porque o mal-estar e a vergonha que se seguem à embriaguez  (Katz-enjammer) causam-nos mais 'desprazer' do que o prazer de nos embriagarmos. Por que não nos apaixonamos cada mês? Porque a cada separação vai um pouco do nosso coração. Porque não fazemos de cada qual um amigo? Porque a perda desse amigo ou qualquer infelicidade que o afete nos afetariam amargamente. Dessa forma, a nossa luta diz mais respeito a evitar a dor do que a criar alegria. Quando o esforço se coroa de êxito, os que se refreiam a si mesmos são como nós, que nos achamos unidos para a vida e para a morte, que suportamos a privação e almejamos o encontro com o outro a fim de manter a nossa fidelidade, e que seguramente não sobreviveriam a um golpe rude do destino que nos roubasse dos que lhes são mais caros: seres humanos, que têm a capacidade de amar apenas uma vez. Nossa conduta total na vida pressupõe que estaremos a salvo da pobreza mais dura, que sempre estará aberta para nós a possibilidade de nos livrarmos, cada vez mais, dos males que afetam nossa estrutura social. O pobre, o homem comum, não poderiam existir sem a sua dura pele e sem os seus modos frívolos. Por que haveriam eles de sentir seus desejos intensamente, quando todas as aflições que a natureza e a sociedade armazenaram estão dirigidas contra aqueles que amam: por que haveriam de desprezar o prazer do momento, quando nenhum outro os aguarda? Os pobres são demasiadamente impotentes, demasiadamente desprotegidos, para agirem como nós o fazemos. [...]" (JONES, 1979, p. 208)



JONES, Ernest. Vida e obra de Sigmund Freud. 3. ed. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1979.