“O de que precisamos resume-se em dois ou três
pequenos quartos, onde possamos viver e fazer as nossas refeições e receber um
hóspede, e de um aparelho para cozinhar de que a fumaça não saia para fora. E
haveremos de ter os complementos caseiros necessários: mesas e cadeiras, camas
de dormir, um espelho, um relógio para lembrar aos felizardos a passagem do
tempo, uma cadeira de balanço para um momento de agradáveis devaneios, tapetes
a fim de que a Hausfrau possa
facilmente manter a casa limpa, um jogo de roupas de linho amarradas com laços
caprichosos e guardadas nas suas prateleiras, roupas da última moda e chapéus
enfeitados com flores artificiais, quadros na parede, copos para o serviço
diário comum e para o vinho nas ocasiões festivas, bandejas e pratos, uma
despensa para quando tivermos uma fome repentina ou para atender a um hóspede
inesperado, uma grande penca de chaves que devem tilintar barulhentamente. Há
tanta coisa de que podemos tirar proveito: a estante de livros e a cesta de
costura e a lâmpada amiga. [...] E essa coisa deve ser testemunha do trabalho
sério que sustenta a casa, aquela outra o sinal da estima pela beleza, de
amigos queridos de quem se lembra com satisfação, de cidades que a gente
visitou, de algumas horas de que a gente gosta de se recordar. Todas essas coisas formam um pequeno mundo
de felicidade, de amigos silenciosos e ficam sendo emblemas de uma honrosa
humanidade.”
Trecho de uma das cartas de Freud à Martha, no período do noivado.
